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domingo, 21 de setembro de 2008

VISTAS LARGAS EM RUAS ESTREITAS

Ao longo dos últimos dois anos temos assistido a um desfile de ideias megalómanas que, a reboque da mais despudorada demagogia, vão enchendo as páginas dos jornais barreirenses e dando a volta à cabeça daqueles que tendem a confundir a realidade com a miragem.

Foi assim com a Terceira Travessia do Tejo (TTT), que até hoje nenhum dos responsáveis autárquicos teve a coragem de divulgar até que ponto irá retalhar o Barreiro, para que possamos continuar a ver passar os comboios que vão para o Sul, sem pararem em nenhuma das estações que ainda ficaram de pé.

Foi assim com a megalómana avenida que Augusto Mateus propôs construir no lugar da linha-férrea que atravessa a cidade onde ainda hoje passa e no futuro continuará a passar a linha do Alentejo. A propósito, aliás, veja-se o terminal ferroviário que a REFER está a construir junto da estação do Barreiro-Mar, com três linhas e duas plataformas de passageiros, no âmbito da empreitada de electrificação da linha do Alentejo.

(...) O objectivo é “melhorar a interface do modo de transporte ferroviário com os modos de transporte fluvial e rodoviário, já existente no Barreiro”, explica a REFER.

(...) Ainda no quadro da electrificação da linha do Sado está previsto que a muito curto prazo avance a construção de uma passagem superior pedonal, junto ao Bairro das Palmeiras, para substituição da existente, que não tem altura suficiente para permitir a electrificação do traçado.
In Jornal “Sem Mais” edição de 13 de Setembro de 2008

A avenida que Augusto Mateus via como tendo quatro faixas, separador central, largos passeios e talvez até uma ciclovia, um percurso verdejante de árvores por onde os barreirenses circulariam em direcção ao novo centro (Forum Barreiro e empreendimento imobiliário do Quimiparque, entenda-se) qual Via Diagonal de Barcelona, ficará, pelos vistos, adiada, para deixar passar os comboios para o Pinhal Novo.

A grande estação interface ferro-rodoviária a construir algures sobre a Escola Álvaro Velho, outra das ideias propostas por Augusto Mateus no seu célebre Plano de Reconversão do Quimiparque (que eu nunca percebi porque tinha que passar para o exterior deste território) e que ficaria desligada do transporte fluvial, tão importante para os milhares de pessoas que o utilizam diariamente, parece afinal ter mudado de sítio para o local agora ocupado pela garagem dos TCB, não para poupar edifícios de habitação mas porque assim o decidiram a REFER/RAVE/CP.

A célebre Cidade do Cinema, que os nossos autarcas “exigiram” tornar-se em projecto PIN+, com sucessivas e inconclusivas reuniões, continua a aguardar que o promotor entregue o Dossier de Projecto, situação que tem vindo sucessivamente a ser adiada.
Na última versão falava-se em Agosto. Foi entregue?

De tudo isto uma coisa parece ser certa. Qualquer perspectiva para futuro do Barreiro passa sempre pelo Quimiparque. Foi lá que se construiu a nova esquadra de polícia, é lá que se está a construir o novo quartel dos Bombeiros Sul e Sueste, é por lá que irá passar a ligação viária ao Forum Barreiro; também é para lá que se mudaram já alguns serviços da Câmara Municipal do Barreiro e outros se lhe seguirão, (ao que parece quando a megalomania couber dentro do orçamento da Quimiparque, SA) e teve também que ser esta empresa, cujo único accionista é o Estado, a doar o terreno para a construção da ETAR e a suportar os custos de movimentação de terras, há um ano atrás.

Não será este interesse e fé nos poderes mágicos do Quimiparque devido apenas aos cerca de 300 hectares de terreno de que esta empresa é proprietária?

“Nós queremos ser uma centralidade na Área Metropolitana de Lisboa, uma centralidade com qualidade, e o elemento mais importante é a Quimiparque. Tudo o resto os outros concelhos têm, o que nos diferencia dos outros concelhos será o que conseguirmos fazer na Quimiparque. É o elemento determinante para o desenvolvimento económico do Barreiro.”
Carlos Humberto ao Jornal “Notícias do Barreiro”, edição 3 de Setembro de 2008


Quererá o Senhor Presidente dizer com isto que “nós” temos 300 hectares, bem no centro da cidade para “atafulhar” de edifícios, como se está a fazer no local do antigo Estádio do Barreirense e na Quinta das Cordoarias?

Estará o Senhor Presidente a pensar nos 40% de fogos devolutos ou por vender, existentes no concelho do Barreiro, ou nas taxas que a autarquia pode arrecadar, com tamanho “desenvolvimento”?

(...) “A ETAR pode levar a que daqui a alguns anos se possa tomar banho no Barreiro, admito que talvez daqui a dois anos.”
Carlos Humberto ao Jornal “Notícias do Barreiro”, edição 3 de Setembro de 2008

Quem sabe, Senhor Presidente, se a ETAR não lhe permitirá tomar banho no Clube Naval daqui a alguns anos, mas para isso terá que começar a ser construída, começar a trabalhar e haverá que dar tempo a que o rio recupere. Isso não se consegue por decreto como também não se consegue construir o hotel que, o senhor, também acredita vir a existir no Barreiro daqui a... dois anos.

E se, à semelhança dos terrenos contaminados do Quimiparque, o rio também o estiver? Já pensou o que pode acontecer quando milhares de metros cúbicos de água começarem a ser atirados ao rio e os fundos lamacentos, eventualmente contaminados com metais pesados, começarem a ser revolvidos pela intensidade de tamanho caudal?

O seu executivo dispara em todas as direcções, Senhor Presidente, parecem-me aqueles caçadores que no primeiro dia de caça atiram a tudo o que mexe... e falham.

[As obras da Avenida Alfredo da Silva] “(...) Incluem, igualmente, o alargamento dos passeios, a plantação de quase uma centena de árvores próprias para zona urbana e a colocação de mobiliário urbano.”
In comunicado da CMB de 25 de Agosto de 2008

(...) Na avenida os passeios vão ser alargados em 2.5 metros cada, vão ser colocadas 100 árvores em cada um dos passeios, todas com um ponto de luz, e serão criadas três zonas de iluminação mais forte, numa avenida onde a velocidade máxima será 30 quilómetros, com o estacionamento proibido em toda a sua extensão.”

(...) “Toda a intervenção [na Av. Alfredo da Silva] tem como objectivo tornar o centro mais atractivo para peões, comércio e lazer. Queremos ser uma centralidade na Área Metropolitana de Lisboa e para isso temos que ter um centro forte e dinâmico (...)”

“Seis metros de estrada dão para passar dois autocarros ao mesmo tempo.”
Carlos Humberto em conferência de imprensa de 2 de Setembro de 2008

“Existem várias ruas do Barreiro com 6 metros onde se cruzam autocarros, mas nós acompanhamos a obra e falamos com as pessoas e decidimos alargar a estrada em mais meio metro, pois na opinião das pessoas podia haver problemas.”
In Jornal de “Notícias do Barreiro”, edição de 10 de Setembro de 2008

[acerca do alargamento de meio metro da nova avenida Alfredo da Silva] “Segundo Carlos Humberto, na rua as opiniões são ouvidas e tidas em conta, pelo que a decisão do executivo passou por conciliar a análise técnica com o sentimento da população”
In “Jornal do Barreiro”, edição de 5 de Setembro de 2008

“Características do novo centro serão ser um centro construído para o peão, onde a circulação automóvel será reduzida a 30Km/h – embora continue nos dois sentidos – e onde o estacionamento será limitado, apenas com 15 pontos de cargas e descargas, equivalente a cerca de 25 carros.”
In “Jornal do Barreiro”, edição de 5 de Setembro de 2008


(...) “para que o Barreiro cresça e seja um Concelho para trabalhar e viver”
In Primeira Opção Participada 2008 com os trabalhadores do DPGU, 2 de Setembro de 2008

“(...) prevendo-se que os trabalhos de pavimentação terminem no início de Outubro. Já no início de Novembro deverá encontrar-se concluída a intervenção nos passeios da Avenida Alfredo da Silva.”
In Comunicado da Câmara Municipal do Barreiro relativo às obras da Av. Alfredo da Silva de 9 de Setembro de 2008

(...)”concluir até meados de Outubro o que é via rodoviária. (empreitada concluída) na primeira ou segunda semanas de Novembro. [o atravessamento do Quimiparque] não estará concluído antes do fim do ano”

(As obras da Av. Alfredo da Silva) “têm decorrido muitíssimo bem e de forma profissional, apenas com um pequeníssimo atraso de dias”
Carlos Humberto em conferência de imprensa de 2 de Setembro de 2008

“A Inspecção Geral do Trabalho deslocou-se à obra a pedido do delegado de saúde do Barreiro (...). Uma vez no local tudo foi inspeccionado, motivo que levou à suspensão parcial das obras na Avenida devido às condições de segurança no trabalho.
Segundo a vereadora Sofia Martins, a razão das obras em profundidade terem sido suspensas prendeu-se com a ‘situação das valas dos colectores principais’
In “Jornal do Barreiro”, edição de 5 de Setembro de 2008

“Estavam a fazer as obras sem segurança, já tinha dado ordem para se terminar a actividade, o encarregado mandava retirar os homens do local, mas quando virava costas colocava-os lá a trabalhar na mesma.”
Os problemas segundo Mário Durval estavam relacionados com os trabalhos que se realizavam em profundidade, em valas com cerca de 4 metros e com o uso de máquinas pesadas a circularem ao mesmo tempo e no mesmo local, o que é proibido.”
In “Jornal do Barreiro”, edição de 5 de Setembro de 2008

Ah, Senhor Presidente as obras... as obras, Senhor Presidente, sinónimo de evolução e progresso, numa cidade onde os velhos são esquecidos em bairros decrépitos cheios de prédios que desafiam a gravidade.

Mas que importa isso agora, desde que o nosso Forum Barreiro se torne realidade em Novembro? Pouco importa que o acesso ao Forum Barreiro seja feito por um túnel escavado sob uma rua pública. Também pouco importa a forma como se faz o acesso e se sai dos pisos de parqueamento e tão pouco interessam os direitos dos munícipes da Rua Stara Zagora que viram o seu estacionamento destruído, sem alternativa.

“O Centro do Barreiro dentro de algum tempo será motivo de satisfação. A sua requalificação, pensamos que trará mais qualidade de vida às populações e permitirá revitalizar o comércio tradicional e consolidar aquele local da cidade como uma grande praça de socialização das gentes da nossa terra.”
In Editorial de “Informação da Câmara Municipal do Barreiro”, de Agosto de 2008

E como explicar, Senhor Presidente, que a mesma Rua Stara Zagora permaneça, praticamente desde o início das obras sem iluminação nocturna, esquecendo-se a Câmara Municipal que garantir a segurança dos cidadãos também é um dos deveres da autarquia que o senhor dirige?

E que nos pode dizer da densidade de construção da Quinta das Cordoarias? Já reparou como o construtor “oficial do regime” conseguiu esconder à sombra do Forum Barreiro um enorme empreendimento imobiliário habitacional (Quinta das Cordoarias, antigo Estadio do Barreirense e a zona habitacional do próprio Forum)?

E porque razão é a empresa Quimiparque a ceder os terrenos necessários à construção dos acessos a todo este complexo imobiliário? Como se não chegasse “partir” em dois o parque empresarial, onde trabalham cerca de 4000 pessoas e condicionar o funcionamento normal das 300 empresas que ali laboram, ainda se corta uma fatia a Poente e obriga-se a demolir alguns edifícios para permitir passar uma rua (de 6 metros?), mantendo intocável o empreendimento habitacional do Estádio do Barreirense.

Deixe-me Senhor Presidente acabar esta postagem com duas perguntas:
Porque razão se estão a colocar colectores para as águas pluviais sem, no entanto, se construírem sumidouros ou sarjetas? (Em toda a nova Avenida Alfredo da Silva existem 5 ou 6 sumidouros).

Com uma “AVENIDA” de 6,5 metros de largura, lugares de paragem para cargas e descargas com menos de 2 metros de largura, que obrigarão a que os veículos de mercadorias estacionem com parte do rodado dentro da faixa de rodagem, como irão circular as ambulâncias, carros de bombeiros e da polícia em serviço de emergência? Quem lhes dará passagem e como?

Minhas Senhoras, meus Senhores, de uma coisa não tenho duvidas: não sei se teremos um Barreiro melhor mas teremos, certamente, um Barreiro diferente!

Sempre Vosso

Captain Jack

domingo, 24 de agosto de 2008

LAPIDAÇÃO ou DELAPIDAÇÃO?

LapidarMatar à pedrada, apedrejar, talhar e polir as faces das pedras preciosas, de vidros, etc. aperfeiçoar, educar, que está gravado em pedra, fundamental, artístico, perfeito.

Delapidar – Esbanjar, Malbaratar, Dissipar, Arruinar
In “Dicionário da Língua Portuguesa”
De J.Almeida Costa e A.Sampaio e Melo
Porto Editora, Lda
De regresso ao Barreiro, depois de umas retemperantes férias algures na costa vicentina, para onde também se preparam as virtudes deste progresso que, de repente invadiu o país, num frenesim de projectos PIN apadrinhados por governantes e autarcas, fui logo avisado que o centro da cidade estava em “requalificação”.

Os avisos repetem-se em diversas placas espalhadas pela cidade, não permitindo contudo, ao automobilista prever o que lhe está reservado no centro.

São voltas e reviravoltas ao volante, em labirínticos percursos cheios de aventura, qual Rally-Papper sem perguntas. Ruas que antes eram de sentido único passaram a ter dois sentidos, sem qualquer sinalização que disso elucide o automobilista, com a separação feita por pimenteiros de PVC ao estilo do improviso bacoco e perigoso que desrespeita quem aqui circula (jardim dos Franceses), arruamentos que inverteram o sentido de circulação sem qualquer aviso prévio, ruas onde circulam ao mesmo tempo automóveis e manobram máquinas e equipamentos de construção civil, retroescavadoras, camiões que transportam materiais de obra, gruas e dumpers, peões, ciclistas e basbaques reformados, que confundem betão com desenvolvimento.

O que me admira não é a falta de organização que reina neste frenesim de obras pré-eleitorais de uma autarquia que ficou de “tanga” pela má gestão do anterior executivo, uma autarquia que demora em média seis meses para pagar aos seus fornecedores e que inventa mil e uma maneiras para sacar ao munícipe e empresas do concelho todos os trocos possíveis (veja-se o caso da recente tarifa de disponibilidade que substitui o aluguer do contador da água, a partir do próximo 1 de Setembro de 2008).

Espanta-me, isso sim, a forma como os perigos “deixam de ser perigosos” quando convém montar vedações de qualquer maneira, sem o mínimo cuidado em sinalizar os obstáculos (DL 163/2006 de 8 de Agosto sobre acessibilidade de pessoas com mobilidade condicionada), quando falta iluminação eficaz nos arruamentos que viram a sua capacidade de circulação condicionada, quando a separação entre sentidos de trânsito se faz com recurso a pimenteiros de plástico já pouco visíveis durante o dia e totalmente invisíveis à noite.

Ninguém contesta a necessidade de se fazerem as obras, no que à rede separativa de esgotos diz respeito. O resto é muito duvidoso, principalmente quando, os mesmos que hoje promovem estas intervenções, contestaram a execução da calçada “PS” da Av. Alfredo da Silva, há quatro anos atrás.

Na altura disse-se, e eu sou dessa opinião, que era um desperdício de dinheiro porque haviam outras intervenções prioritárias. Então como explicar agora este esbanjamento? Não parece uma birrinha de miúdos mimados?

Os pedopsicólogos dizem que as birras da criança são sinónimo de uma personalidade forte, mas estes “meninos” que têm gerido a nossa cidade, qualquer que seja a cor do respectivo “bibe”, não têm pais ricos... embora gastem como se tivessem ido ao banco.

E como explicar que o Regulamento Municipal de Obras obrigue os construtores de obras particulares (pelo menos alguns) a vedar os seus estaleiros com chapas opacas (para proteger as zonas envolventes alheias às construções a executar) e se permita às empresas responsáveis por estas obras de “requalificação” que decorrem no centro do Barreiro, o desrespeito por esta norma?

As vedações colocadas na Av. Alfredo da Silva não protegem as pessoas que circulam nos passeios que ladeiam esta artéria. As suas bases constituem um perigo para as pessoas com mobilidade condicionada, principalmente os invisuais.

As poeiras e os detritos resultantes dos trabalhos de remoção do pavimento são projectados para lá destas barreiras podendo atingir pessoas e bens, para não falar nos inconvenientes que esta situação trás aos comerciantes da zona. Quem se responsabiliza por isso? Porque não se exigiu o cumprimento do Regulamento Municipal de Obras?
Uma simples lona ou pano bastaria para proteger os transeuntes das poeiras e projecção de detritos, como se vê na figura ao lado, numa obra municipalde outro concelho.

A obra não dispõe de qualquer placa identificativa que informe sobre qual a entidade/empresa que a executa, onde é o estaleiro da mesma, nem quem é o seu responsável técnico (DL 555/99).

Onde está a sinalização, obrigatória por lei, nas obras de construção civil? Quem é o coordenador de segurança da obra que não vê que os trabalhadores andam sem Equipamentos de Protecção Individual? E a fiscalização do IDICT anda assim tão atarefada que ainda não deu por esta situação?

E a PSP, como entidade responsável pela segurança rodoviária na cidade, ainda não detectou que, bem perto da sua esquadra da Praça de Santa Cruz, a separação de sentidos de circulação rodoviária é feita só com pimenteiros? É seguro? E já analisaram bem a dificuldade da manobra que os condutores, que se deslocam no sentido “Avenida da Praia”/Praça de Santa Cruz - Rua Stara Zagora, são obrigados a efectuar ao chegarem ao Jardim dos Franceses?

E como deve ser bom viver na Rua Stara Zagora, nesta altura!

Esta é uma artéria onde manobram as máquinas da obra do Forum Barreiro e circulam veículos, por uma única faixa, em dois sentidos. O truque, minhas senhoras, meus senhores, é gostar de sentir a adrenalina e avançar sempre. O mais fraco acaba sempre por recuar.

Mas deixemos as obras em curso porque estas só vão durar três meses (Agosto, Setembro e Outubro) estando prontas em Novembro. Por isso acredito que, antes de este blog registar 8000 visitas tudo estará concluído com excepção do mercado 1º de Maio. Não me parece muito: Rede de Esgotos (está quase feita, as tubagens até já estão enterradas...), alargamento dos passeios (“mantendo-se o desenho mas melhorado”, segundo o Sr. Vice-Presidente. Apetece perguntar: será com as cores do arco-iris?), plantação de cerca de 100 árvores (espero que não seja “sem” árvores...) e rotunda junto da Rua Stara Zagora com uma escultura do artista moçambicano José Malangatana.

Por amor de Deus, se não conseguirem fazer isto em três meses... ainda por cima a Av. Alfredo da Silva vai ter a sua largura reduzida para seis metros... (é mais que suficiente para passarem dois carros e até permite inversão de marcha! Isto leva-me a sugerir ao Sr. Presidente Carlos Humberto que se faça o mesmo à Av. J.J. Fernandes, no Lavradio e à Av. De Santa Maria, no Barreiro. Seria assim uma espécie de ex-libris desta cidade…Barreiro a cidade das Avenidas de 6 metros!).

Meus senhores, senhoras minhas, eu acredito mesmo nesta cidade polinucleada, uma cidade de duas margens, com o rio Tejo devolvido aos cidadãos, com amplas áreas de desporto e lazer, um hotel dentro de dois anos, uma cidade do cinema no Quimiparque (estou já a ver os tours turísticos em autocarro - destes mais pequenos recentemente adquiridos pelos TCB, ao estilo hollywoodesco, pelo Barreiro Velho), uma multidão a desembarcar nas novas estações, ferroviária e fluvial, do Quimiparque, a correr feliz para os seus empregos nos edifícios de serviços a construir no Quimiparque, não sem antes deixar de acenar, contentes, aos empresários que chegam de Madrid, no TGV, para estabelecerem acordos de negócios com o Gabinete do Empresário da Câmara Municipal, uma multidão aguardando a abertura das lojas de roupa de marca do Fórum Barreiro e as rapariguinhas de shopping, com os seus saltos altos a ressoarem na nova calçada da Avenida Alfredo da Silva (que na altura já deverá ter outra designação), atrasadas para ocuparem os 1000 postos de trabalho criados por este empreendimento.

Por essa altura já se deverá saber onde ficará a estátua de Alfredo da Silva e Carlos Mattos já deverá ter entregue ao governo o seu ante-projecto da Cidade do Cinema.

Meus senhores, senhoras minhas do, sempre Vosso,
Captain Jack & AlmaSense

terça-feira, 10 de junho de 2008

A Vénus de Milo, a Sereia de Copenhaga e a estátua de Alfredo da Silva


O que têm estas três estátuas em comum? Aparentemente nada. A primeira está exposta em Paris e tem mais de 2000 anos, a segunda está sobre uma pedra na capital dinamarquesa, desde 1913 e, em 1965, a terceira foi inaugurada numa praça pública de uma cinzenta, triste e desconhecida cidade chamada Barreiro.

O elemento comum não é, como se vê, a geografia.

A Vénus de Milo é uma estátua grega que mede 203 cm de altura, foi esculpida em mármore e simboliza a beleza física e o amor. A pequena sereia dinamarquesa, pequena de mais para que se revele a sua altura, foi fundida em bronze em homenagem a Hans Christian Andersen, e é uma personagem imaginária de um conto de encantar, deste escritor dinamarquês.

A estátua de Alfredo da Silva, em bronze, com 360 cm de altura simboliza o espírito empreendedor daquele que foi chamado o “Capitão da Industria” e é uma homenagem a um homem que tem o seu lugar na história deste país.

Também por aqui não vamos lá. Não têm de comum nem os criadores, nem as dimensões e muito menos o que simbolizam. Duas delas, que se saiba, curiosamente feitas do mesmo metal, são homenagens a pessoas a quem o seu respectivo país reconhece mérito.

Se teimarmos em encontrar um ponto comum entre estas obras de arte seremos forçados a admitir que este aspecto reside na desilusão que nos causam.

A Vénus foi encontrada em 1820 na ilha de Milo por um pescador que não sabendo o seu real valor a tentou vender a oficiais franceses. Como estes demorassem muito tempo a decidir-se ofereceu-a também ao exército turco que de imediato se prontificou a levá-la para a corte.

No meio de um rocambolesco incidente a estátua acabou a bordo de um barco francês que a trouxe para Paris, deixando, perdidos nas ruas da ilha de Milo, os dois braços que lhe faltam. Verificou-se mais tarde que a amputação era ainda maior do que se pensava inicialmente. A figura estaria apoiada numa coluna e teria pulseiras e uma tiara em ouro, como parecem mostrar os diversos orifícios que existem na estátua e que seriam os pontos de fixação destes ornamentos.

Atraindo multidões ao Louvre, onde está exposta, não deixa de constituir uma certa desilusão, para os amantes da arte, não a poderem apreciar na sua forma original, isto é, completa.

A sereia de Copenhaga reserva a todos quantos a visitam a desilusão da sua pequena dimensão, mais acentuada porque somos obrigados a observa-la de cima.

Já a estátua de Alfredo da Silva constituiu, desde sempre, uma enorme desilusão para aqueles “defensores” da classe operária que nunca conseguiram ofuscar o brilho da imagem do que este homem representa para a generalidade dos barreirenses.

Escreveu o poeta que “aqueles que por obras valerosas/Se vão da lei da Morte libertando” mereciam que ele os cantasse por toda a parte, “Se a tanto me ajudar o engenho e arte.”

Arte e engenho talvez existam ainda hoje mas para enganar os ingénuos e incautos. Para enganar os que seguem cegamente os “presidentes de clube” ou os pseudo messias que surgem com a solução “ovo de Colombo” que aqueles que os antecederam não conheciam.

Com a actual polémica sobre a mudança da estátua de Alfredo da Silva estamos perante uma das muitas manobras de viciação dos factos para condicionar a opinião pública. Temos assistido a um desfilar de argumentos que vão desde os mais pueris, como o facto de a base da figura causar problemas técnicos à solução proposta pelo arquitecto Joan Busquets, ou o facto de todo o arranjo ser de três autores diferentes e como tal ser impossível conciliar estas linguagens com a proposta para o novo Mercado Municipal.

A verdadeira questão continua a ser o simbolismo que a estátua tem para o povo do Barreiro. Independentemente da personalidade do homem ou das suas ideias políticas, das benesses que recebeu (ou não) do regime e do preço que teve que pagar por elas (ou não), aquilo que o Barreiro recorda é a época em que trabalhar na CUF era sinónimo de segurança.

O que aquela estátua trás à memória dos barreirenses é a lembrança do tempo em que o Barreiro tinha cinemas, uma piscina, dois clubes na primeira divisão de futebol, uma actividade comercial próspera, emprego para 12000 pessoas directamente na CUF, o primeiro supermercado da era moderna (Pão-de-Açucar, lembram-se, onde hoje é o “Recheio”?), um patrono que construiu um externato infantil e o “vendeu” para Liceu, uma escola industrial e comercial que preparava os jovens para a vida do trabalho, ensinando-lhes uma profissão (desde serralheiro mecânico a analista químico, passando por torneiro mecânico, soldador ou electricista).

O que aquela estátua recorda ao povo do Barreiro era a qualidade de vida que se vivia na cidade onde a CUF e a CP garantiam o desenvolvimento e contribuíam, para lá da sua actividade, financiando a construção de bairros de habitação como é o caso do “Bairro da Câmara”, ou com a criação de serviços sociais, assistência médica e despensa de produtos alimentares, quando em Portugal ainda não havia um sistema de Segurança Social do próprio Estado.

Mas, olhando para aquela estátua os barreirenses recordam também a possibilidade de terem dado aos seus filhos os cursos que eles próprios não tiveram a oportunidade de tirar. O Barreiro possui entre os seus nativos uma percentagem de licenciados superior à média nacional. Alguns nomes conhecidos da generalidade dos portugueses, desde actores, jornalistas, advogados, juizes, médicos, engenheiros, arquitectos e até políticos são filhos da cidade e hoje profissionais consagrados nas suas áreas.

Mais do que recordar Alfredo da Silva, aquela estátua remete-nos para o tempo em que se desenvolvia a cidade, em que o nível cultural dos seus habitantes permitiu o florescimento de colectividades que, a coberto dos bailes de carnaval ou dos santos populares, desenvolviam um importante papel de consciencialização social. Faz-nos lembrar quando se faziam obras públicas como construir uma rede de saneamento básico, de abastecimento público de água, a criação de uma rede de transportes públicos ou a manutenção dos arruamentos.

Era toda uma cidade (ainda vila, nesses tempos) que tinha dinâmica própria e gente competente a gerir os seus destinos e não políticos com cassetes convertidas para CD, em novas versões dos discursos inflamados feitos aos portões da CUF/Quimigal, prometendo-nos futuros risonhos que, trinta anos volvidos, continuam sem se tornar realidade.

Nesta fase final do ataque ao que resta da memória do que outrora foi esta cidade, tentam re-escrever a história, apagando as referências que existem daqueles que o povo ainda recorda e a quem reconhece a valia de ter transformado uma vila piscatória que vivia, sazonalmente, da cortiça, num dos mais avançados complexos tecnológicos europeus da década de sessenta.

Em toda esta questão não me parece importante se a estátua fica no mesmo lugar ou se é transferida para outro. Preocupam-me muito mais os valores que esta decisão põe em questão. Que valores estamos a passar aos nossos filhos? Que as estátuas, geralmente homenagem aos notáveis de uma determinada época, podem ser mandadas para o “lixo”, guardadas num qualquer armazém como se tivessem prazo de validade?

Como se define o prazo de validade de uma atitude meritória, de uma figura que se destacou na sociedade, de um facto histórico ou de um acto de heroísmo?

Estará a estátua de Afonso Henriques, na cidade berço, dentro do prazo de validade ou pode ser mudada para um armazém na Azambuja para se poder transformar o Castelo de Guimarães e zonas envolventes num imenso centro comercial tipo Forum Barreiro, com umas centenas de fogos de habitação à mistura?

E que tal se seguíssemos a mesma linha de raciocínio e mudássemos também a estátua de Fernando Pessoa para, digamos, a Rua da Betesga? Sempre poderíamos garantir mais uma mesa de esplanada para nela se sentarem quatro “camones” ...

Movidos por esta ideia também poderíamos arrasar o Padrão dos Descobrimentos para melhor “devolver o rio à cidade de Lisboa”, os lisboetas puderem desfrutar da zona ribeirinha de Belém sem nada a tapar-lhes a vista, tanto mais que, hoje já não é mistério, sabe-se que a epopeia dos Descobrimentos Marítimos foi uma exploração do proletariado de 1500 e uma colonização subjugadora dos povos irmãos dos novos países de expressão portuguesa, em África.

É o respeito pelo passado que nos garante a História e é a História que nos permite aprender com os erros do passado. O povo judeu continua a visitar Auschwitz apesar de este lugar lhes trazer dolorosas recordações, mas faz questão de não deixar morrer a memória para que o passado não seja esquecido.

No Barreiro somos diferentes. Gastámos 50.000 contos numa “obra de arte” para a rotunda da Escola Álvaro Velho, inaugurámos um Memorial a Catarina Eufémia no parque municipal que recebeu o seu nome e preparamo-nos para esconder a estátua de Alfredo da Silva, num qualquer canto onde não chateie, como se este não tivesse feito nada pelo Barreiro.
Como futura localização da estátua começou por se falar na nova rotunda do conhecido Largo das Obras para rapidamente já se terem levantado hipóteses de o transladar para o seu mausoléu, no interior do Quimiparque ou para a frente do pavilhão gimnodesportivo do GDFabril. Por enquanto está guardado num armazém.

"A estátua já está a ser retirada devido às obras que decorrem para construção do novo Mercado 1º Maio e zona envolvente. É certo que a estátua não pode ficar naquele local. No executivo da Câmara já falámos sobre isso apesar de ainda não haver uma decisão pois a situação vai ser analisada na Assembleia Municipal", disse à Lusa Joaquim Matias, vice-presidente da Câmara do Barreiro.

“Nesta altura existem várias hipóteses e uma delas é colocar a estátua numa nova rotunda na zona do Largo das Obras (junto à entrada do Parque Empresarial da Quimiparque), mas existem outros locais, como o interior da Quimiparque", explicou o vice-presidente.

"A estátua é um obstáculo para uma praça ampla, com espaços comerciais e esplanadas, pois na zona o seu conjunto corta e divide aquela área", concluiu.
In “Noticias.rtp.pt” chave de pesquisa: “estátua de Alfredo da Silva”

Sobre o assunto, na sessão da Assembleia Municipal de 15 de Maio de 2008, o Presidente Carlos Humberto, explicou que "Fomos nós, e não o arquitecto Joan Busquets, que pensámos que a estátua não é compatível com a praça que pretendemos e demos essa indicação ao arquitecto. A estátua por si só, sem o pedestal e espelho de água, não vejo problema, agora como está não é compatível", disse.

"Os três elementos pertencem a artistas diferentes e devem ser vistos como um todo. Tem que se ter sensibilidade", acrescentou

"O Largo das Obras é uma hipótese, mas existem outras como dentro da Quimiparque ou junto ao estádio Alfredo da Silva. Ainda não há decisão e até entendi que não se devia retirar a estátua, devido aos trabalhos de construção do mercado e requalificação da zona envolvente, antes desta assembleia", explicou.

Nesta sessão da Assembleia Municipal a bancada do PS apresentou uma proposta para que fosse feito um referendo local sobre o assunto para que a população se pudesse pronunciar quanto à retirada ou manutenção da estátua, no entanto a abstenção do PSD e do BE deram origem à rejeição da mesma com os votos do PCP.

Apetece fazer algumas perguntas:
Quem tem medo da opinião do povo do Barreiro?
Que direito tem o executivo camarário de desrespeitar o passado histórico do Barreiro?
Que direito têm os gestores autárquicos de imporem uma filosofia de projecto a um arquitecto como Joan Busquets? Ou será que ele foi escolhido porque se predispôs a fazer tudo quanto lhe pedissem e não pela sua inquestionável valia técnica?
Como pode Joan Busquets ter contribuído para a reconversão do bairro catalão de Poblenou, em Barcelona, onde se fez questão de manter 144 elementos arquitectónicos característicos da zona e sujeitar-se, aqui, a retirar do local o único ponto de referência ao passado da cidade?
Como se explica que a memória de Alfredo da Silva seja incompatível com o espaço mas um elevador de vidro já possa ocupar o lugar central da futura praça?
E de que projecto estamos a falar? Alguém o conhece? Como se explica que uma simples moradia familiar tenha que enfrentar o calvário do processo de licenciamento camarário e este projecto não tenha um único elemento conhecido do público que, indirectamente, o está a pagar?
Porque é que nem os esboços apresentados nas supostas sessões de discussão pública estão no site da Câmara Municipal?

Não me importo que a estátua de Alfredo da Silva seja retirada do local onde está, penso mesmo que merece uma localização mais digna e onde possa ser apreciada, não pelo seu valor artístico mas pelo que Alfredo da Silva representou para o país.

Sem dúvida, meus senhores e minhas senhoras, o Barreiro não merece o privilégio de ter a estátua daquele que, entre reis, rainhas, presidentes e notáveis da história de Portugal, está no grupo das 100 figuras do milénio.

Sempre ao V. dispor

Captain Jack