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terça-feira, 10 de junho de 2008

A Vénus de Milo, a Sereia de Copenhaga e a estátua de Alfredo da Silva


O que têm estas três estátuas em comum? Aparentemente nada. A primeira está exposta em Paris e tem mais de 2000 anos, a segunda está sobre uma pedra na capital dinamarquesa, desde 1913 e, em 1965, a terceira foi inaugurada numa praça pública de uma cinzenta, triste e desconhecida cidade chamada Barreiro.

O elemento comum não é, como se vê, a geografia.

A Vénus de Milo é uma estátua grega que mede 203 cm de altura, foi esculpida em mármore e simboliza a beleza física e o amor. A pequena sereia dinamarquesa, pequena de mais para que se revele a sua altura, foi fundida em bronze em homenagem a Hans Christian Andersen, e é uma personagem imaginária de um conto de encantar, deste escritor dinamarquês.

A estátua de Alfredo da Silva, em bronze, com 360 cm de altura simboliza o espírito empreendedor daquele que foi chamado o “Capitão da Industria” e é uma homenagem a um homem que tem o seu lugar na história deste país.

Também por aqui não vamos lá. Não têm de comum nem os criadores, nem as dimensões e muito menos o que simbolizam. Duas delas, que se saiba, curiosamente feitas do mesmo metal, são homenagens a pessoas a quem o seu respectivo país reconhece mérito.

Se teimarmos em encontrar um ponto comum entre estas obras de arte seremos forçados a admitir que este aspecto reside na desilusão que nos causam.

A Vénus foi encontrada em 1820 na ilha de Milo por um pescador que não sabendo o seu real valor a tentou vender a oficiais franceses. Como estes demorassem muito tempo a decidir-se ofereceu-a também ao exército turco que de imediato se prontificou a levá-la para a corte.

No meio de um rocambolesco incidente a estátua acabou a bordo de um barco francês que a trouxe para Paris, deixando, perdidos nas ruas da ilha de Milo, os dois braços que lhe faltam. Verificou-se mais tarde que a amputação era ainda maior do que se pensava inicialmente. A figura estaria apoiada numa coluna e teria pulseiras e uma tiara em ouro, como parecem mostrar os diversos orifícios que existem na estátua e que seriam os pontos de fixação destes ornamentos.

Atraindo multidões ao Louvre, onde está exposta, não deixa de constituir uma certa desilusão, para os amantes da arte, não a poderem apreciar na sua forma original, isto é, completa.

A sereia de Copenhaga reserva a todos quantos a visitam a desilusão da sua pequena dimensão, mais acentuada porque somos obrigados a observa-la de cima.

Já a estátua de Alfredo da Silva constituiu, desde sempre, uma enorme desilusão para aqueles “defensores” da classe operária que nunca conseguiram ofuscar o brilho da imagem do que este homem representa para a generalidade dos barreirenses.

Escreveu o poeta que “aqueles que por obras valerosas/Se vão da lei da Morte libertando” mereciam que ele os cantasse por toda a parte, “Se a tanto me ajudar o engenho e arte.”

Arte e engenho talvez existam ainda hoje mas para enganar os ingénuos e incautos. Para enganar os que seguem cegamente os “presidentes de clube” ou os pseudo messias que surgem com a solução “ovo de Colombo” que aqueles que os antecederam não conheciam.

Com a actual polémica sobre a mudança da estátua de Alfredo da Silva estamos perante uma das muitas manobras de viciação dos factos para condicionar a opinião pública. Temos assistido a um desfilar de argumentos que vão desde os mais pueris, como o facto de a base da figura causar problemas técnicos à solução proposta pelo arquitecto Joan Busquets, ou o facto de todo o arranjo ser de três autores diferentes e como tal ser impossível conciliar estas linguagens com a proposta para o novo Mercado Municipal.

A verdadeira questão continua a ser o simbolismo que a estátua tem para o povo do Barreiro. Independentemente da personalidade do homem ou das suas ideias políticas, das benesses que recebeu (ou não) do regime e do preço que teve que pagar por elas (ou não), aquilo que o Barreiro recorda é a época em que trabalhar na CUF era sinónimo de segurança.

O que aquela estátua trás à memória dos barreirenses é a lembrança do tempo em que o Barreiro tinha cinemas, uma piscina, dois clubes na primeira divisão de futebol, uma actividade comercial próspera, emprego para 12000 pessoas directamente na CUF, o primeiro supermercado da era moderna (Pão-de-Açucar, lembram-se, onde hoje é o “Recheio”?), um patrono que construiu um externato infantil e o “vendeu” para Liceu, uma escola industrial e comercial que preparava os jovens para a vida do trabalho, ensinando-lhes uma profissão (desde serralheiro mecânico a analista químico, passando por torneiro mecânico, soldador ou electricista).

O que aquela estátua recorda ao povo do Barreiro era a qualidade de vida que se vivia na cidade onde a CUF e a CP garantiam o desenvolvimento e contribuíam, para lá da sua actividade, financiando a construção de bairros de habitação como é o caso do “Bairro da Câmara”, ou com a criação de serviços sociais, assistência médica e despensa de produtos alimentares, quando em Portugal ainda não havia um sistema de Segurança Social do próprio Estado.

Mas, olhando para aquela estátua os barreirenses recordam também a possibilidade de terem dado aos seus filhos os cursos que eles próprios não tiveram a oportunidade de tirar. O Barreiro possui entre os seus nativos uma percentagem de licenciados superior à média nacional. Alguns nomes conhecidos da generalidade dos portugueses, desde actores, jornalistas, advogados, juizes, médicos, engenheiros, arquitectos e até políticos são filhos da cidade e hoje profissionais consagrados nas suas áreas.

Mais do que recordar Alfredo da Silva, aquela estátua remete-nos para o tempo em que se desenvolvia a cidade, em que o nível cultural dos seus habitantes permitiu o florescimento de colectividades que, a coberto dos bailes de carnaval ou dos santos populares, desenvolviam um importante papel de consciencialização social. Faz-nos lembrar quando se faziam obras públicas como construir uma rede de saneamento básico, de abastecimento público de água, a criação de uma rede de transportes públicos ou a manutenção dos arruamentos.

Era toda uma cidade (ainda vila, nesses tempos) que tinha dinâmica própria e gente competente a gerir os seus destinos e não políticos com cassetes convertidas para CD, em novas versões dos discursos inflamados feitos aos portões da CUF/Quimigal, prometendo-nos futuros risonhos que, trinta anos volvidos, continuam sem se tornar realidade.

Nesta fase final do ataque ao que resta da memória do que outrora foi esta cidade, tentam re-escrever a história, apagando as referências que existem daqueles que o povo ainda recorda e a quem reconhece a valia de ter transformado uma vila piscatória que vivia, sazonalmente, da cortiça, num dos mais avançados complexos tecnológicos europeus da década de sessenta.

Em toda esta questão não me parece importante se a estátua fica no mesmo lugar ou se é transferida para outro. Preocupam-me muito mais os valores que esta decisão põe em questão. Que valores estamos a passar aos nossos filhos? Que as estátuas, geralmente homenagem aos notáveis de uma determinada época, podem ser mandadas para o “lixo”, guardadas num qualquer armazém como se tivessem prazo de validade?

Como se define o prazo de validade de uma atitude meritória, de uma figura que se destacou na sociedade, de um facto histórico ou de um acto de heroísmo?

Estará a estátua de Afonso Henriques, na cidade berço, dentro do prazo de validade ou pode ser mudada para um armazém na Azambuja para se poder transformar o Castelo de Guimarães e zonas envolventes num imenso centro comercial tipo Forum Barreiro, com umas centenas de fogos de habitação à mistura?

E que tal se seguíssemos a mesma linha de raciocínio e mudássemos também a estátua de Fernando Pessoa para, digamos, a Rua da Betesga? Sempre poderíamos garantir mais uma mesa de esplanada para nela se sentarem quatro “camones” ...

Movidos por esta ideia também poderíamos arrasar o Padrão dos Descobrimentos para melhor “devolver o rio à cidade de Lisboa”, os lisboetas puderem desfrutar da zona ribeirinha de Belém sem nada a tapar-lhes a vista, tanto mais que, hoje já não é mistério, sabe-se que a epopeia dos Descobrimentos Marítimos foi uma exploração do proletariado de 1500 e uma colonização subjugadora dos povos irmãos dos novos países de expressão portuguesa, em África.

É o respeito pelo passado que nos garante a História e é a História que nos permite aprender com os erros do passado. O povo judeu continua a visitar Auschwitz apesar de este lugar lhes trazer dolorosas recordações, mas faz questão de não deixar morrer a memória para que o passado não seja esquecido.

No Barreiro somos diferentes. Gastámos 50.000 contos numa “obra de arte” para a rotunda da Escola Álvaro Velho, inaugurámos um Memorial a Catarina Eufémia no parque municipal que recebeu o seu nome e preparamo-nos para esconder a estátua de Alfredo da Silva, num qualquer canto onde não chateie, como se este não tivesse feito nada pelo Barreiro.
Como futura localização da estátua começou por se falar na nova rotunda do conhecido Largo das Obras para rapidamente já se terem levantado hipóteses de o transladar para o seu mausoléu, no interior do Quimiparque ou para a frente do pavilhão gimnodesportivo do GDFabril. Por enquanto está guardado num armazém.

"A estátua já está a ser retirada devido às obras que decorrem para construção do novo Mercado 1º Maio e zona envolvente. É certo que a estátua não pode ficar naquele local. No executivo da Câmara já falámos sobre isso apesar de ainda não haver uma decisão pois a situação vai ser analisada na Assembleia Municipal", disse à Lusa Joaquim Matias, vice-presidente da Câmara do Barreiro.

“Nesta altura existem várias hipóteses e uma delas é colocar a estátua numa nova rotunda na zona do Largo das Obras (junto à entrada do Parque Empresarial da Quimiparque), mas existem outros locais, como o interior da Quimiparque", explicou o vice-presidente.

"A estátua é um obstáculo para uma praça ampla, com espaços comerciais e esplanadas, pois na zona o seu conjunto corta e divide aquela área", concluiu.
In “Noticias.rtp.pt” chave de pesquisa: “estátua de Alfredo da Silva”

Sobre o assunto, na sessão da Assembleia Municipal de 15 de Maio de 2008, o Presidente Carlos Humberto, explicou que "Fomos nós, e não o arquitecto Joan Busquets, que pensámos que a estátua não é compatível com a praça que pretendemos e demos essa indicação ao arquitecto. A estátua por si só, sem o pedestal e espelho de água, não vejo problema, agora como está não é compatível", disse.

"Os três elementos pertencem a artistas diferentes e devem ser vistos como um todo. Tem que se ter sensibilidade", acrescentou

"O Largo das Obras é uma hipótese, mas existem outras como dentro da Quimiparque ou junto ao estádio Alfredo da Silva. Ainda não há decisão e até entendi que não se devia retirar a estátua, devido aos trabalhos de construção do mercado e requalificação da zona envolvente, antes desta assembleia", explicou.

Nesta sessão da Assembleia Municipal a bancada do PS apresentou uma proposta para que fosse feito um referendo local sobre o assunto para que a população se pudesse pronunciar quanto à retirada ou manutenção da estátua, no entanto a abstenção do PSD e do BE deram origem à rejeição da mesma com os votos do PCP.

Apetece fazer algumas perguntas:
Quem tem medo da opinião do povo do Barreiro?
Que direito tem o executivo camarário de desrespeitar o passado histórico do Barreiro?
Que direito têm os gestores autárquicos de imporem uma filosofia de projecto a um arquitecto como Joan Busquets? Ou será que ele foi escolhido porque se predispôs a fazer tudo quanto lhe pedissem e não pela sua inquestionável valia técnica?
Como pode Joan Busquets ter contribuído para a reconversão do bairro catalão de Poblenou, em Barcelona, onde se fez questão de manter 144 elementos arquitectónicos característicos da zona e sujeitar-se, aqui, a retirar do local o único ponto de referência ao passado da cidade?
Como se explica que a memória de Alfredo da Silva seja incompatível com o espaço mas um elevador de vidro já possa ocupar o lugar central da futura praça?
E de que projecto estamos a falar? Alguém o conhece? Como se explica que uma simples moradia familiar tenha que enfrentar o calvário do processo de licenciamento camarário e este projecto não tenha um único elemento conhecido do público que, indirectamente, o está a pagar?
Porque é que nem os esboços apresentados nas supostas sessões de discussão pública estão no site da Câmara Municipal?

Não me importo que a estátua de Alfredo da Silva seja retirada do local onde está, penso mesmo que merece uma localização mais digna e onde possa ser apreciada, não pelo seu valor artístico mas pelo que Alfredo da Silva representou para o país.

Sem dúvida, meus senhores e minhas senhoras, o Barreiro não merece o privilégio de ter a estátua daquele que, entre reis, rainhas, presidentes e notáveis da história de Portugal, está no grupo das 100 figuras do milénio.

Sempre ao V. dispor

Captain Jack




domingo, 25 de maio de 2008

O Rei, os Arautos e o(s) Cavalo(s) de Tróia

É conhecida a história-lenda do cavalo de Tróia e como ele permitiu aos gregos entrar na bem preparada, organizada e fortificada cidade de Tróia onde, a coberto da noite e aproveitando a alegria dos habitantes que celebravam a suposta retirada das tropas inimigas, lograram eliminar toda a resistência e abriram as pesadas e robustas portas da cidade.

Com o pretexto de recuperar a bela Elena, seu pai, o Rei Minelau, reuniu os exércitos das cidades-reino da Grécia que havia conquistado, e marchou sobre Tróia para resgatar a filha e defender a sua reputação de líder temido.

Longo tempo demorou o cerco até que, não podendo vencer pela força os determinados e bem organizados guerreiros de Tróia, o fez recorrendo a uma astuciosa artimanha. Simulando a retirada, Minelau abandonou no terreno uma falsa estátua de madeira representando um cavalo que escondia no interior Aquiles e alguns dos seus melhores guerreiros.

Pensando que o exército invasor havia desistido foram os próprios habitantes de Tróia que levaram para o interior da cidade esta falsa estátua. A coberto da noite Aquiles e os seus guerreiros saíram do interior da estátua, franquearam os portões da cidade ao exército de Minelau que entretanto regressara à ilha e destruíram a cidade.

Esta manobra ficou na história como a forma mais astuciosa de dominar uma cidade ou uma organização a partir do seu interior. Séculos mais tarde são conhecidas as manobras de estratégia militar que se apoiam nas unidades de reconhecimento que, infiltradas em território inimigo, quais Cavalos de Tróia, passam informações ou atacam alvos importantes.

Na altura da Guerra Fria, ambas as potências de então - EUA e URSS - usaram estratégias similares, infiltrando agentes, as célebres toupeiras, que passavam para o exterior das respectivas organizações/sociedades onde estavam inseridos, informações consideradas vitais.

Já mais recentemente o conceito foi recuperado e aplicou-se também à actividade informática, com o desenvolvimento de pequenas aplicações de software que, uma vez no interior de um computador, apagam informação ou, simplesmente, o tornam acessível e vulnerável a partir do exterior. Genericamente designados por vírus, alguns tomam mesmo a designação de Troianos, fazendo-nos recordar a eficácia de Aquiles e dos seus guerreiros.

O Cavalo de Tróia continuará sempre presente enquanto houverem interesses escondidos ou pessoas desonestas dispostas a recorrerem a este tipo de estratagema.

O Cavalo de Tróia está presente no Barreiro e o seu efeito é visível no recentemente aprovado Plano de Urbanização (PU) e nos 300 hectares do Quimiparque previstos reconverter como convém ao Rei Minelau, seja ele quem for.

É precisamente a dúvida quanto à identidade do Rei Minelau que torna tão difícil desmascarar todo o estratagema que vem envolvendo esta cidade, num laço muito estreito entre o que é o interesse de determinados construtores civis, o interesse da Câmara Municipal e o de certos intervenientes com interesses na actividade imobiliária a gerar por este pretenso desenvolvimento que assenta, não na melhoria do que está degradado mas, na destruição do que existe, funciona e tem potencial para ser melhorado.

Olhando para o recente Plano de Urbanização que a Câmara Municipal aprovou em 9 de Abril de 2008 e que, curiosamente apesar de estar em curso o período de trinta dias destinado à discussão pública, ainda não está disponível para consulta no site da autarquia, é difícil perceber a lógica de abranger nesta operação uma zona tão extensa e esquecer o Barreiro Velho.

Porque se deixou ficar de fora o Barreiro Velho, uma das mais degradadas zonas da cidade? Não seria uma oportunidade para o renovar (ou reconverter)?
Plano de Urbanização Aprovado
A vermelho a zona do Barreiro Velho
A amarelo a zona abrangida pelo PU
(Clicar p/ ampliar)

Percebe-se que, numa altura em que os Arautos falam de novos acessos, rodoviários e ferroviários, da Terceira Travessia do Tejo, do atravessamento do Quimiparque para fazer chegar os clientes ao Forum Barreiro e os compradores à urbanização da Quinta das Cordoarias, da anunciada estação intermodal a construir algures na zona da Escola Álvaro Velho e do Complexo desportivo do Grupo Desportivo Fabril, de “novas centralidades” e de novos desafios, as zonas afectadas por todo este “reboliço” mereçam uma atenção especial. Não seria, no entanto, de aproveitar o balanço para estender a dinâmica que se pretende gerar, também ao Barreiro Velho? Ou mesmo, começar por aqui?

Vamos a Barcelona buscar o catalão Joan Busquets para nos projectar um Mercado novo e reformular a Av. Alfredo da Silva, apesar de nela termos gasto 70.000 contos (350.000€) há apenas 4 anos, com a pavimentação dos passeios. Porque não o aproveitamos para recuperar o Barreiro Velho e deixamos a Av. Alfredo da Silva como está?

Já que “está cá” o Arquitecto Joan Busquets, a Risco, SA dos irmãos Salgado (filhos de Manuel Salgado, que em tempos desenvolveu a pedido do então Presidente da Autarquia, Pedro Canário, um projecto de reconversão para o Quimiparque que previa a sua utilização para produção de energias renováveis), convida-o também para ser o coordenador geral do Plano de Urbanização para o Parque Empresarial do Quimiparque.

Este projecto poderá custar aos cofres da empresa, segundo afirmam os conhecedores, cerca de 120.000 contos (600.000€). Já antes, o saudoso Masterplan desenvolvido pela Ideias do Futuro, custara a esta empresa idêntico valor para ser deitado ao lixo quando foi substituído pelo recente Plano de Reconversão do Quimiparque.

Por este trabalho a Risco, SA facturou cerca de 100.000 contos (500.000€).

A Quimiparque é uma empresa com um único accionista – o Estado – através da Sociedade Parpública. Não admira por isso que tenha aceite entrar numa espiral de investimentos, dos quais ainda não viu resultados práticos a não ser a degradação do seu parque empresarial, no Barreiro.

Foi a Quimiparque que suportou os custos da movimentação de terras, no Lavradio, para construção da ETAR Barreiro-Moita que tarda em tornar-se realidade, mal grado a prontidão com que a empresa de capital público desembolsou 200.000€ (40.000 contos).

No curriculum de gastos suportados pela Quimiparque pontuam ainda a cedência e pagamento dos trabalhos de remodelação do antigo refeitório da zona têxtil, destinado à futura esquadra da PSP-Barreiro (650.000€ - 130.000 contos), os custos estimados em 500.000€ - 100.000 contos para preparar dois edifícios que serão doados à corporação de bombeiros voluntários do Sul e Sueste, os encargos a suportar com a remodelação integral da antiga fábrica da Sotinco para a ceder aos serviços da Câmara Municipal do Barreiro (valor estimado em 2M€ a 3M€ - 400.000 contos a 600.000 contos) e como se tudo isto não fosse suficiente ainda lhe caberá ter que pagar a adaptação da travessia do arruamento interno que ligará, a partir do final de 2008, o Forum Barreiro ao Lavradio, com a correspondente alteração do antigo Largo das Obras e a implantação da estátua de Alfredo da Silva no centro da nova rotunda viária que aqui irá nascer.


Novas Vias urbanas para servirem
o Forum Barreiro e a Quinta das Cordoarias
(Clicar para ampliar)


Quem é o Rei Minelau que mandou cercar o Quimiparque?
Quem são os guerreiros que “entraram” pelos portões do Quimiparque na barriga deste Cavalo de Tróia?

Por que permite o accionista da Quimiparque que se gaste tanto dinheiro sem contrapartidas?

É verdade que a Staples Office não obteve permissão da câmara para se instalar no Salis Park e optou por se instalar no Montijo?

Como se explica que os candidatos a compradores de lotes no loteamento industrial Salis Park, pertença da Quimiparque, tenham que esperar cerca de ano e meio até conseguirem o licenciamento camarário para se instalarem neste local, quando qualquer construtor consegue começar a construir, meia dúzia de meses após a recepção provisória das infra-estruturas ou, como é o caso da Quinta das Cordoarias, começam a construção ainda antes de estas estarem concluídas?

Como se lembram os que nos lêem, relativamente a este empreendimento, ainda recentemente o trânsito no cruzamento da Av. Alfredo da Silva com a Rua Miguel Bombarda, sofreu graves condicionamentos para que, finalmente se pudessem executar as ligações necessárias às redes de infra-estruturas existentes.

Em Agosto de 2007, quando já decorriam os trabalhos de construção do edifício onde funcionará o Forum Barreiro, houve uma ruptura na canalização de gás, quando se executava a conduta de água para abastecimento à Quinta das Cordoarias.

As infra-estruturas não estavam concluídas, na altura, ainda não estão provisoriamente recepcionadas, hoje, mas a obra já atingiu a fase do reboco das paredes.

Como explica a Câmara Municipal que o promotor com quem assinou o contrato de urbanização da Quinta das Cordoarias, a quem incumbia a realização das infra-estruturas viárias de acesso ao Forum Barreiro, tenha conseguido ver transferida esta responsabilidade para a empresa de capital público, Quimiparque (ver links no fim da postagem), que irá ceder terrenos e pagar a nova rua que ligará este empreendimento ao Largo das Obras e daqui ao Lavradio, pelo interior da sua propriedade?

Quem ganha com toda esta estratégia de transformação/destruição do Quimiparque, único local do concelho verdadeiramente concebido para instalar empresas e dar trabalho?

Quanto “factura” a autarquia por cada alvará de construção para habitação e quanto “factura” para a construção de um armazém ou da sede social de uma empresa?

Quantos edifícios de habitação cabem em 300 hectares e quanto “facturará” a Câmara Municipal por esses alvarás? E quantos armazéns ou instalações industriais cabem nessa mesma área e qual o valor desses alvarás?

Depois da conquista de Tróia, Minelau não recuperou a sua filha Elena, mas esse aspecto passou a ser secundário uma vez que a invencibilidade do velho Rei continuou a ser espalhado aos quatro ventos pelos Arautos.

Tróia ficou destruída e nunca mais recuperou. A ideia do Cavalo de Tróia é atribuída a Aquiles mas é bem provável que tão fantástico guerreiro não tivesse outras capacidades que não habilidade e arte no manejo das armas.

Minhas Senhoras e meus Senhores é sabido que no jogo da vida não podemos mudar as cartas que nos dão, mas somos livres de escolher a forma como as jogamos.

E vocês, como é que escolhem jogar as cartas que têm na mão?

Sempre Vosso

Captain Jack


PS - A próxima postagem será sobre a Estátua de Alfredo da Silva.
É para ficar onde está, qual é a dúvida?

A 11 de Maio 2008 um amigo enviu-nos estes links que têm bastante interesse dê-lhes um olhinho:

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https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhGJh3Vm8XHTGXdUAN9xK2FWyjdjiIB8txq2WRZgwS7-oBbG_iNXYSF1rXdN7WfDLnsF6vNNZDEXhYeiXzTo5sUawUyh8iI3p1aA0scXJamXnDB4bKTr7ErLGuv9vZN64WhcD8qHBdrnzWc/s1600-h/image024.jpg

domingo, 4 de maio de 2008

Agora é que eles nos dizem ...?!

Ainda na ressaca dos festejos pela nova Ponte eis que os nossos autarcas começam a mudar a tónica do discurso. Já não é a satisfação e a alegria, já não são as facilidades, o desenvolvimento do concelho e a criação de emprego que a nova infra-estrutura vai trazer para o Barreiro.

Pela primeira vez se admite publicamente o impacto negativo da Ponte na cidade. O Sr. Vice-Presidente da Câmara Municipal do Barreiro, Joaquim Matias, fala mesmo na necessidade de a cidade “ter de se adaptar a esta nova estrutura para que o Barreiro não fique nem encafuado nem congestionado” e sente-se mesmo na obrigação de nos garantir “que o município está a trabalhar para maximizar os benefícios e minimizar os impactos negativos”. In “Jornal do Barreiro” de 25 de Abril de 2008

Não sei se hei-de ficar preocupado ou em pânico. Olhando para o passado tenho que admitir que, a maior parte do que foi feito pela autarquia primou por nos deixar pior do que estávamos ou ser inconsequente.

Mais uma vez fico confundido quando recordo que uma solução “tão estudada”, chegámos mesmo a ouvir Carlos Humberto referir “mais de 20 anos de estudos aprofundados” para agora ficarmos a saber por Joaquim Matias que afinal tanto estudo, ainda precisa que seja a Câmara Municipal do Barreiro a contrapor soluções para minimizar os impactos negativos no Barreiro. E mesmo assim só se fala em minimizar.

E a Câmara Municipal do Barreiro tem técnicos que consigam ombrear com os da RAVE e Estradas de Portugal para minimizar os impactos negativos que os primeiros não foram capazes de minimizar em “estudos aprofundados”?

Não duvido que a autarquia tenha tal património técnico, no entanto apetece-me perguntar por onde andaram estes técnicos ao longo de tantos anos, quando o Barreiro tanto precisou deles? Onde estavam quando se aprovou o Forum/Quinta das Cordoarias, no centro do Barreiro? Porque não minimizaram (nem previram) este impacto visual, viário e económico?

Que andam a fazer estes técnicos quando, recentemente, permitiram que se traçasse um arruamento para ligar o Barreiro ao Lavradio, pelo interior de uma zona empresarial que é a única mancha significativa de emprego no concelho (4000 postos de trabalho e 300 empresas que irão ver a sua movimentação condicionada pelo trânsito diário de milhares de viaturas)?

Quem são esses técnicos que permitiram a construção da Quinta da Mina que, menos de 8 anos após a sua construção necessita reparações orçadas em quase 1M€? Que trabalhos desenvolvem esses técnicos que ainda não souberam mostrar aos nossos políticos a necessidade de reparar os arruamentos mais movimentados da cidade, que estão cheios de buracos? (ver exemplo da Rua Miguel Pais, da Rua da CUF e a da Rua Dr. Manuel Pacheco Nobre, entre outras).

Escreve o “Jornal do Barreiro” no artigo em que cita Joaquim Matias que o município se depara com “um trabalho profundo que consiste em saber como inserir a ponte no Barreiro”.

Que pode o município definir num projecto de interesse Nacional? Alguma coisa depende da Câmara Municipal? Quando se tomou uma decisão política, que agora se sabe ir destruir em Palmela cerca de 20 hectares da melhor vinha do mundo, em que medida pode a Câmara do Barreiro condicionar esta opção?

Não estaremos de novo em bicos de pés ou, pior que isso, não estamos a atirar areia para os olhos da “malta”?

Quando os nossos autarcas deveriam ter tido a lucidez de estudar as consequências do impacto desta mega infra-estrutura, na cidade e no Concelho, gritaram a plenos pulmões que o Barreiro queria a Ponte. Os mesmos, dizem-nos agora, quererem negociar com o Governo para exigir portagens virtuais e uma “Gare do Oriente em vez de uma Santa Apolónia”.

A atitude do executivo camarário, que não é muito diferente da atitude das restantes forças políticas do Barreiro, é um autêntico “faz de conta que sabemos”, um “querer mostrar que se está perfeito conhecedor do que se passa e se decide” sem, contudo, conseguir esconder que tudo está a passar ao lado da Câmara do Barreiro.

A decisão, sobre o que parece serem as duas opções de traçado, está em cima da mesa da RAVE e até o LNEC “recomenda”, agora, a desfasar a construção da linha férrea da componente rodoviária, chegando mesmo a falar desta como uma segunda fase do empreendimento.

Não obstante estas evidências os nossos autarcas ajudam a RAVE a esconder o jogo quando deveriam, pelo contrário, ser os primeiros a clarificar a situação e a divulgá-la aos primeiros interessados, aqueles que vivem na proximidade das hipóteses de traçado consideradas.

Este silêncio, esta falta de divulgação de informação cria intranquilidade nos munícipes. Como é possível que um empreendimento deste tipo, que condiciona a vida de todos quantos vivem e trabalham no concelho do Barreiro, não mereça a publicação, no site da autarquia, da informação já disponível sobre o assunto?

Quando se fala de participação das populações na vida do concelho o site da câmara limita-se a revelar os fait-divers do quotidiano da gestão diária da autarquia, as iniciativas estéreis dos protocolos assinados, das visitas VIP da vereação a esta ou aquela organização, a pavimentação ou o arranjo de logradouros. O que é importante fica de fora!

Seria bom que, de uma vez por todas, os nossos políticos entendessem que 34 anos perdidos são mais que suficientes para admitir a incapacidade das suas propostas, das suas práticas e dos seus métodos de trabalho. Não falo em particular de nenhuma força política, mas de todas em especial.

O Barreiro perdeu 34 anos, durante os quais a centenária linha ferroviária do Sul se mudou para o Pinhal Novo, a CUF e a Quimigal morreram, não por falta de solidariedades, como referiu Carlos Humberto no programa Prós e Contras da RTP1, mas devido a discursos inflamados aos portões das fábricas, plenários sucessivos e greves com portões fechados a cadeado, incitadas por políticos locais que haveriam de liderar a autarquia e dar continuidade a uma política que teimou em desaproveitar recursos, humanos e materiais, desde que estes não se inscrevessem em determinada linha de ideais partidários.

O Barreiro perdeu 34 anos assistindo a duvidosas operações de loteamento como a Quinta dos Fidalguinhos, fase 1 e fase 2, a urbanização da Escavadeira, a Quinta das Naus, a Quinta das Cordoarias, do Alto da Vila (onde foi destruída uma mancha de pinheiros, junto ao cemitério da Vila Chã), ou o recente loteamento industrial junto à Mata da Machada, em Palhais, entre outras.

Quantos postos de trabalho foram criados com esta política imobiliária? Que qualidade de vida resultou daqui para o Barreiro e para os seus habitantes? Onde foram aplicadas as taxas cobradas com as licenças para tanta construção?

O pacote de rebuçados que nos apresentaram começa agora a mostrar o seu conteúdo. O Forum Barreiro da Quinta das Cordoarias começa a mostrar à população ter sido apenas um pretexto para permitir um empreendimento massivo de fogos de habitação que se pretendem vender a preços de luxo. Para quem? E se não forem vendidos que fazer com tamanho mastodonte?

A nova Ponte vai obrigar a demolir a Escola Álvaro Velho, introduzir uma praça de portagem entre o Hospital e o Campo dos Galitos e, muito provavelmente à demolição de uma franja de edifícios no Lavradio. A garagem dos TCB ou a sub-estação da EDP também não escaparão a esta necessidade nacional bem como a Escola 2-3 Padre Abílio Mendes e o ginásio da Secundária Augusto Cabrita.

A IC21, transformando-se numa via com portagem, deixará de servir de rodovia local. Vamos voltar ao Barreiro de há 30 anos atrás quando para irmos do centro do Barreiro para a Vila Chã tínhamos duas alternativas - pela Quinta da Lomba ou pela Baixa da Banheira, neste caso via Fidalguinhos.

O Mercado 1º de Maio aguarda pelo projecto que Juan Busquets ainda não fez, apesar de, para ir disfarçando, já estarem montadas as barreiras metálicas de protecção à obra transformando o centro do Barreiro numa paisagem de aspecto confrangedor. A pressa foi tanta que nem o abrigo da paragem de autocarros foi mudado para a nova localização desta e o quiosque dos jornais ficou escondido atrás dos tapumes.

Enquanto a APL termina as obras na Av. Bento Gonçalves vão caindo casas no Barreiro Velho e sendo colocadas placas sinalizando os buracos que vão aparecendo nos pavimentos dos arruamentos, da própria avenida e nas ruas interiores do Barreiro Velho.

Com a administração do parque empresarial do Quimiparque assinam-se protocolos que transformam terrenos que sendo do Estado Português são de todos nós, em terrenos que servem interesses privados, como é o caso do novo arruamento que, sendo construído a expensas do Quimiparque, servirá o novo Centro Comercial Forum Barreiro.

Junta-se a este interessante protocolo o excelente negócio dos Bombeiros Sul e Sueste a quem serão oferecidos dois edifícios, no interior do Quimiparque, a custo zero, mas completamente remodelados e equipados, de novo a expensas desta empresa de capital público, depois de a mesma ter cedido um terreno para a construção do quartel definitivo desta corporação, no valor de algumas centenas de milhares de euros.

Nada de espantar uma vez que é também o Quimiparque que está a suportar os custos das obras de adaptação do antigo refeitório da zona têxtil, para que nele funcione a esquadra da PSP e é ainda esta mesma empresa que irá pagar as obras de remodelação de um conjunto de edifícios, das antigas fábricas da Sotinco, para os entregar à autarquia, que neles instalará alguns dos seus serviços.

Quanto à ligação entre o Barreiro e o Lavradio através do parque empresarial, outro dos protocolos assinados, obriga a que seja também o Quimiparque a executar, pagar e manter em perfeitas condições as alterações a fazer à rua interior do complexo para a tornar pública.

Para quem fala tanto em incentivar o investimento, para quem não se cansa de aparecer em cerimónias a elogiar os empresários que investem no concelho e até a apadrinhar alguns investimentos (outras vez na área do imobiliário) é no mínimo estranho que se tenha optado por ligar o Barreiro ao Lavradio partindo ao meio, o parque empresarial do Quimiparque.

Afinal em que ficamos, Sr. Presidente Carlos Humberto, queremos mesmo o Quimiparque com empresas ou os 300 hectares pretendem-se transformados em taxas para licenças de construção?

E que pretende a administração do Quimiparque? Esbanjar dinheiro público, tornar economicamente inviável um parque empresarial com potencialidades, como poucos têm em Portugal, para justificar a sua alienação em lotes para construção de habitação?

Que se ganha com isto? Terá o Estado mais interesse nisso ou em manter os actuais 4000 postos de trabalho existentes e até aumentá-los para 5000 ou 6000?

Minhas senhoras, meus senhores gostava mesmo de saber o que vai na cabeça desta gente, palavra de

Captain Jack