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domingo, 4 de maio de 2008

Agora é que eles nos dizem ...?!

Ainda na ressaca dos festejos pela nova Ponte eis que os nossos autarcas começam a mudar a tónica do discurso. Já não é a satisfação e a alegria, já não são as facilidades, o desenvolvimento do concelho e a criação de emprego que a nova infra-estrutura vai trazer para o Barreiro.

Pela primeira vez se admite publicamente o impacto negativo da Ponte na cidade. O Sr. Vice-Presidente da Câmara Municipal do Barreiro, Joaquim Matias, fala mesmo na necessidade de a cidade “ter de se adaptar a esta nova estrutura para que o Barreiro não fique nem encafuado nem congestionado” e sente-se mesmo na obrigação de nos garantir “que o município está a trabalhar para maximizar os benefícios e minimizar os impactos negativos”. In “Jornal do Barreiro” de 25 de Abril de 2008

Não sei se hei-de ficar preocupado ou em pânico. Olhando para o passado tenho que admitir que, a maior parte do que foi feito pela autarquia primou por nos deixar pior do que estávamos ou ser inconsequente.

Mais uma vez fico confundido quando recordo que uma solução “tão estudada”, chegámos mesmo a ouvir Carlos Humberto referir “mais de 20 anos de estudos aprofundados” para agora ficarmos a saber por Joaquim Matias que afinal tanto estudo, ainda precisa que seja a Câmara Municipal do Barreiro a contrapor soluções para minimizar os impactos negativos no Barreiro. E mesmo assim só se fala em minimizar.

E a Câmara Municipal do Barreiro tem técnicos que consigam ombrear com os da RAVE e Estradas de Portugal para minimizar os impactos negativos que os primeiros não foram capazes de minimizar em “estudos aprofundados”?

Não duvido que a autarquia tenha tal património técnico, no entanto apetece-me perguntar por onde andaram estes técnicos ao longo de tantos anos, quando o Barreiro tanto precisou deles? Onde estavam quando se aprovou o Forum/Quinta das Cordoarias, no centro do Barreiro? Porque não minimizaram (nem previram) este impacto visual, viário e económico?

Que andam a fazer estes técnicos quando, recentemente, permitiram que se traçasse um arruamento para ligar o Barreiro ao Lavradio, pelo interior de uma zona empresarial que é a única mancha significativa de emprego no concelho (4000 postos de trabalho e 300 empresas que irão ver a sua movimentação condicionada pelo trânsito diário de milhares de viaturas)?

Quem são esses técnicos que permitiram a construção da Quinta da Mina que, menos de 8 anos após a sua construção necessita reparações orçadas em quase 1M€? Que trabalhos desenvolvem esses técnicos que ainda não souberam mostrar aos nossos políticos a necessidade de reparar os arruamentos mais movimentados da cidade, que estão cheios de buracos? (ver exemplo da Rua Miguel Pais, da Rua da CUF e a da Rua Dr. Manuel Pacheco Nobre, entre outras).

Escreve o “Jornal do Barreiro” no artigo em que cita Joaquim Matias que o município se depara com “um trabalho profundo que consiste em saber como inserir a ponte no Barreiro”.

Que pode o município definir num projecto de interesse Nacional? Alguma coisa depende da Câmara Municipal? Quando se tomou uma decisão política, que agora se sabe ir destruir em Palmela cerca de 20 hectares da melhor vinha do mundo, em que medida pode a Câmara do Barreiro condicionar esta opção?

Não estaremos de novo em bicos de pés ou, pior que isso, não estamos a atirar areia para os olhos da “malta”?

Quando os nossos autarcas deveriam ter tido a lucidez de estudar as consequências do impacto desta mega infra-estrutura, na cidade e no Concelho, gritaram a plenos pulmões que o Barreiro queria a Ponte. Os mesmos, dizem-nos agora, quererem negociar com o Governo para exigir portagens virtuais e uma “Gare do Oriente em vez de uma Santa Apolónia”.

A atitude do executivo camarário, que não é muito diferente da atitude das restantes forças políticas do Barreiro, é um autêntico “faz de conta que sabemos”, um “querer mostrar que se está perfeito conhecedor do que se passa e se decide” sem, contudo, conseguir esconder que tudo está a passar ao lado da Câmara do Barreiro.

A decisão, sobre o que parece serem as duas opções de traçado, está em cima da mesa da RAVE e até o LNEC “recomenda”, agora, a desfasar a construção da linha férrea da componente rodoviária, chegando mesmo a falar desta como uma segunda fase do empreendimento.

Não obstante estas evidências os nossos autarcas ajudam a RAVE a esconder o jogo quando deveriam, pelo contrário, ser os primeiros a clarificar a situação e a divulgá-la aos primeiros interessados, aqueles que vivem na proximidade das hipóteses de traçado consideradas.

Este silêncio, esta falta de divulgação de informação cria intranquilidade nos munícipes. Como é possível que um empreendimento deste tipo, que condiciona a vida de todos quantos vivem e trabalham no concelho do Barreiro, não mereça a publicação, no site da autarquia, da informação já disponível sobre o assunto?

Quando se fala de participação das populações na vida do concelho o site da câmara limita-se a revelar os fait-divers do quotidiano da gestão diária da autarquia, as iniciativas estéreis dos protocolos assinados, das visitas VIP da vereação a esta ou aquela organização, a pavimentação ou o arranjo de logradouros. O que é importante fica de fora!

Seria bom que, de uma vez por todas, os nossos políticos entendessem que 34 anos perdidos são mais que suficientes para admitir a incapacidade das suas propostas, das suas práticas e dos seus métodos de trabalho. Não falo em particular de nenhuma força política, mas de todas em especial.

O Barreiro perdeu 34 anos, durante os quais a centenária linha ferroviária do Sul se mudou para o Pinhal Novo, a CUF e a Quimigal morreram, não por falta de solidariedades, como referiu Carlos Humberto no programa Prós e Contras da RTP1, mas devido a discursos inflamados aos portões das fábricas, plenários sucessivos e greves com portões fechados a cadeado, incitadas por políticos locais que haveriam de liderar a autarquia e dar continuidade a uma política que teimou em desaproveitar recursos, humanos e materiais, desde que estes não se inscrevessem em determinada linha de ideais partidários.

O Barreiro perdeu 34 anos assistindo a duvidosas operações de loteamento como a Quinta dos Fidalguinhos, fase 1 e fase 2, a urbanização da Escavadeira, a Quinta das Naus, a Quinta das Cordoarias, do Alto da Vila (onde foi destruída uma mancha de pinheiros, junto ao cemitério da Vila Chã), ou o recente loteamento industrial junto à Mata da Machada, em Palhais, entre outras.

Quantos postos de trabalho foram criados com esta política imobiliária? Que qualidade de vida resultou daqui para o Barreiro e para os seus habitantes? Onde foram aplicadas as taxas cobradas com as licenças para tanta construção?

O pacote de rebuçados que nos apresentaram começa agora a mostrar o seu conteúdo. O Forum Barreiro da Quinta das Cordoarias começa a mostrar à população ter sido apenas um pretexto para permitir um empreendimento massivo de fogos de habitação que se pretendem vender a preços de luxo. Para quem? E se não forem vendidos que fazer com tamanho mastodonte?

A nova Ponte vai obrigar a demolir a Escola Álvaro Velho, introduzir uma praça de portagem entre o Hospital e o Campo dos Galitos e, muito provavelmente à demolição de uma franja de edifícios no Lavradio. A garagem dos TCB ou a sub-estação da EDP também não escaparão a esta necessidade nacional bem como a Escola 2-3 Padre Abílio Mendes e o ginásio da Secundária Augusto Cabrita.

A IC21, transformando-se numa via com portagem, deixará de servir de rodovia local. Vamos voltar ao Barreiro de há 30 anos atrás quando para irmos do centro do Barreiro para a Vila Chã tínhamos duas alternativas - pela Quinta da Lomba ou pela Baixa da Banheira, neste caso via Fidalguinhos.

O Mercado 1º de Maio aguarda pelo projecto que Juan Busquets ainda não fez, apesar de, para ir disfarçando, já estarem montadas as barreiras metálicas de protecção à obra transformando o centro do Barreiro numa paisagem de aspecto confrangedor. A pressa foi tanta que nem o abrigo da paragem de autocarros foi mudado para a nova localização desta e o quiosque dos jornais ficou escondido atrás dos tapumes.

Enquanto a APL termina as obras na Av. Bento Gonçalves vão caindo casas no Barreiro Velho e sendo colocadas placas sinalizando os buracos que vão aparecendo nos pavimentos dos arruamentos, da própria avenida e nas ruas interiores do Barreiro Velho.

Com a administração do parque empresarial do Quimiparque assinam-se protocolos que transformam terrenos que sendo do Estado Português são de todos nós, em terrenos que servem interesses privados, como é o caso do novo arruamento que, sendo construído a expensas do Quimiparque, servirá o novo Centro Comercial Forum Barreiro.

Junta-se a este interessante protocolo o excelente negócio dos Bombeiros Sul e Sueste a quem serão oferecidos dois edifícios, no interior do Quimiparque, a custo zero, mas completamente remodelados e equipados, de novo a expensas desta empresa de capital público, depois de a mesma ter cedido um terreno para a construção do quartel definitivo desta corporação, no valor de algumas centenas de milhares de euros.

Nada de espantar uma vez que é também o Quimiparque que está a suportar os custos das obras de adaptação do antigo refeitório da zona têxtil, para que nele funcione a esquadra da PSP e é ainda esta mesma empresa que irá pagar as obras de remodelação de um conjunto de edifícios, das antigas fábricas da Sotinco, para os entregar à autarquia, que neles instalará alguns dos seus serviços.

Quanto à ligação entre o Barreiro e o Lavradio através do parque empresarial, outro dos protocolos assinados, obriga a que seja também o Quimiparque a executar, pagar e manter em perfeitas condições as alterações a fazer à rua interior do complexo para a tornar pública.

Para quem fala tanto em incentivar o investimento, para quem não se cansa de aparecer em cerimónias a elogiar os empresários que investem no concelho e até a apadrinhar alguns investimentos (outras vez na área do imobiliário) é no mínimo estranho que se tenha optado por ligar o Barreiro ao Lavradio partindo ao meio, o parque empresarial do Quimiparque.

Afinal em que ficamos, Sr. Presidente Carlos Humberto, queremos mesmo o Quimiparque com empresas ou os 300 hectares pretendem-se transformados em taxas para licenças de construção?

E que pretende a administração do Quimiparque? Esbanjar dinheiro público, tornar economicamente inviável um parque empresarial com potencialidades, como poucos têm em Portugal, para justificar a sua alienação em lotes para construção de habitação?

Que se ganha com isto? Terá o Estado mais interesse nisso ou em manter os actuais 4000 postos de trabalho existentes e até aumentá-los para 5000 ou 6000?

Minhas senhoras, meus senhores gostava mesmo de saber o que vai na cabeça desta gente, palavra de

Captain Jack

domingo, 6 de abril de 2008

A PONTE TRAZ PROGRESSO OU LEVA CARROS?

A ponte vem para o Barreiro.


O LNEC apresentou ao Governo da Nação o resultado do estudo comparativo que fez sobre as duas hipóteses que lhe foram apresentadas para a terceira travessia do Tejo:
Chelas-Barreiro vs Beato-Montijo-Barreiro
mas ainda não divulgou o relatório ao país.

Entende-se que em primeiro lugar seja dada a informação ao “patrão” mas os que pagam também têm o direito de saber porque é que têm que pagar e, sobretudo devem ser informados, para que não hajam dúvidas que estão a pagar a solução mais adequada.

Ao contrário de outros barreirenses, a ligação directa do Barreiro a Lisboa, nestes moldes, não me agrada mas reservo a minha opinião para quando puder ler o relatório do LNEC que defende esta opção. Espero que o próximo programa “Prós e Contras”, de 7 de Abril, onde será debatida esta escolha, possa também ajudar-me a entender a decisão que foi tomada.

Correndo o risco de estar a analisar de forma incorrecta a solução, até porque não sou especialista em urbanismo, ordenamento do território ou transportes, parece-me contudo que a solução da CIP, estudada pelo Prof. José Viegas e que reúne o consenso da maior parte dos maiores especialistas portugueses na matéria, seria aquela que mais vantagens traria à Margem Sul.

Com a prevista ligação Barreiro-Seixal cujo projecto já foi pago pela Siderurgia e Quimiparque, para que toda a margem sul esteja ligada entre si, de modo mais directo, para potenciar sinergias, falta apenas a ligação Barreiro-Montijo, proposta pela opção do Prof. Viegas.

Esta era, aliás, o plano que António Guterres defendeu quando se construiu a Ponte Vasco da Gama no Montijo. Pretendia-se, na altura, lançar as bases do futuro anel do Metro da Margem Sul, a sair de Lisboa pela Ponte 25 de Abril, estabelecer a ligação ao Lavradio e, numa segunda fase, construir a entrada em Lisboa pelo Montijo.

Aceita-se que, n mundo em que vivemos, a realidade e os parâmetros mudem por completo em 10 anos mas, não duvidemos que esta ponte é um convite directo à deslocação em transporte privado e à suburbanização do Barreiro, como cidade mais dependente de Lisboa.

Se agora os nossos filhos quando querem ver cinema vão para Lisboa, depois seremos nós que lá iremos até para cortar o cabelo …

O Presidente Carlos Humberto diz que acredita que assim não seja assim e afirma que esta ponte “vai ajudar a concretizar o Barreiro como m pólo económico e de emprego, aproveitando os cerca de 300 hectares públicos da Quimiparque” (in jornal Margem Sul de 4 Abril 2008).


Se a esta afirmação juntarmos o que conhecemos do Plano de Reconversão deste território, permitindo que sejam ocupados praticamente metade dos seus 285 hectares com habitação (comércio e serviços, segundo também se promete) – ver figura onde a parte encarnada está definida como área destinada a habitação (clicar para ver aumentado).


Como facilmente se compreende, a chegada da ponte ao Barreiro é a cereja sobre o bolo que o lobby que pressiona, em particular, este executivo camarário, onde dispõe de elementos em lugares chave para definir a estratégia do Concelho, estava à espera.

Esta Ponte para além de ser o caminho mais curto para e de Lisboa pode muito bem ser o caminho para que outras “Kianas” off-shore possam aparecer a comprar os, agora cada vez mais, valiosos terrenos do centro da cidade e em particular os do Quimiparque, até porque muita gente confunde progresso, qualidade de vida e nível de desenvolvimento de uma cidade ou região, com o número de edifícios ou de habitantes que possui. Nada mais errado. Se assim fosse deveríamos considerar Delhi, na Índia, mais desenvolvida que Oslo ou Londres e New York menos desenvolvida que Xangai.

É este erro que parece estar a servir aos nossos autarcas para confundir a população e confundirem-se também a eles próprios, quando nos apresentam a Ponte como a solução para a perda de habitantes do Barreiro ou como remédio para a falta de empregos no concelho. Foi assim no Montijo ou em Alcochete?

É evidente que a nova ponte Chelas-Barreiro trará mais habitantes para o Barreiro, mas não é líquido que traga, só por si mais investimento.

Para quem defende a continuidade da actividade empresarial no Quimiparque é estranho como o nosso executivo camarário permanece inactivo enquanto por todo o país se assiste à criação de parques empresariais, com o empenho das diversas autarquias.

Em Novembro de 2007 nos Vales do Lima e do Minho existiam 22 parques e pólos empresariais responsáveis por 10 000 postos de trabalho. Em Vila Nova de Gaia a autarquia apostou na criação do Parque Empresarial de S. Félix da Marinha, no de Perosinho e no de Sandim. A câmara de Guimarães lançou-se na criação do Parque de Ciência e Tecnologia – AvePark, Almada apostou no Madan Park, a Covilhã no ParkUrbis e o TagusPark foi aposta ganha em Oeiras.
No Barreiro assiste-se à pressão imobiliária sobre as zonas nobres da cidade e em especial sobre o Quimiparque, aceitando a boleia que a própria administração desta empresa estatal, foi dando.

Enquanto noutros concelhos as infraestruturas empresariais não existem e são criadas para tornar as cidades sustentáveis, no Barreiro vendem-se “novas centralidades” em formato “Fórum” e contratam-se especialistas catalães para justificar obras que descaracterizam imóveis como o actual Mercado 1º de Maio.




Curioso como em Barcelona, no projecto de reconversão do bairro de Poblenou, o famoso 22@Barcelona, houve a preocupação de salvaguardar 144 referências às antigas actividades industriais desenvolvidas neste bairro e, no Barreiro, o projecto de Joan Busquets, faz esquecer a arquitectura de arcos de ferradura nas janelas e portas, característica do período romântico de finais do século XIX, mantendo as fachadas menos expressivas e mais adulteradas.

Parece ser o reescrever da história, tão comum nesta cidade, desde o 25 de Abril. O eliminar de referências históricas da cidade, como é o caso da mudança da estátua de Alfredo da Silva, para apagar as memórias do passado, como se dele tivéssemos dever ter vergonha ou quiséssemos esconder alguma coisa.

O passado deve assumir-se e ser interpretado no contexto em que se insere e foi vivido. Mas compreende-se que possa ser incómodo para alguns que, sequiosos de o ver esquecido, tentam, não “em perigos e guerras esforçados”, mas com obras megalómanas, serem recordados (“da lei da morte se vão libertando”, disse o poeta).

É estranho que, com tal vontade de fazer história, o nosso executivo camarário se tenha esquecido de propor ao governo, há semelhança do que têm feito muitos empresários e presidentes de outras autarquias, em situações idênticas, a classificação do território do Quimiparque como ALE (Áreas de Localização Empresarial).

Os nossos políticos barreirenses não sabem o que é? Eu passo a explicar …

Em 1997, o Dr. Pina Moura, através do Sr. Secretário de Estado Fernando Pacheco, criou e legislou uma solução que contemplava um conjunto de soluções integradas visando a instalação de empresas em zonas vocacionadas para o efeito (ALE) e onde o licenciamento industrial, ambiental, abastecimento de energias, gestão física de resíduos, tratamento de esgotos, manutenção e conservação de espaços exteriores, encontravam resposta numa estrutura vocacionada para o efeito, que tinha como missão a gestão de cada Parque Empresarial.

As ALE apresentam-se como a solução para os “Loteamentos Industriais”, como lhes chamamos, e devem contemplar um conjunto de soluções integradas para o estabelecimento de empresas, a criação de emprego, racionalização de custos energéticos, de criação de sinergias regionais, disciplinadoras e reguladoras da actividade empresarial.

Sendo o Quimiparque uma empresa do Estado, dirigida por gestores que se movimentam bem nos corredores do poder político, uma vez que do seu conselho de administração fazem parte um antigo secretário de estado e um ex-ministro da saúde, recentemente regressado à ribalta política, como apoiante do líder da oposição, parece-me que seria fácil, em parceria com o poder local, conseguir este estatuto.

Mas será que esta hipótese agradaria a gregos e a troianos, quero dizer, à Quimiparque e ao executivo camarário?

Estou em crer que não e, curiosamente, pela mesma razão.

Para a administração do Quimiparque e para o accionista da empresa, o negócio atractivo não é criar emprego e gerir um parque empresarial, mas sim alienar património do Estado para fazer um encaixe rápido de capital, cumprir ou mesmo ultrapassar objectivos definidos e juntar ao curriculum pessoal mais um desempenho de sucesso.

Pelo caminho ficarão alguns desempregados, coisa pouca, se pensarmos no que significa uma operação de encaixe de capital bem sucedido para o accionista, a possibilidade de uma promoção e menos um afazer que nos obriga a sair do luxuoso gabinete, na capital, para o subúrbio, despendendo tempo que poderia ser ocupado de outra forma, talvez até com a gestão de um, hipotético, negócio particular.

Para a autarquia a “coisa” pode colocar-se no mesmo pé, mas por caminhos diferentes.
Se os terrenos do Quimiparque fossem destinados à instalação de novas empresas as taxas de construção a cobrar seriam muito inferiores aquelas que resultam da construção de edifícios para habitação (comércio e serviços, já me esquecia desta particularidade).

Estão, pois, em jogo, muitos milhões de euros e a ponte Chelas-Barreiro só vem potenciar o que já se concretizou “lá para as bandas” de Montijo e Alcochete, isto é, “bué da” construção.

A ponte Chelas-Barreiro permitirá também o sucesso de empreendimentos imobiliários como a Urbanização do Campo das Cordoarias, incluindo o Fórum Barreiro, da Urbanização da Ribeira das Naus, não só a fase já construída mas aquela que se estende até ao Polis, da Quinta de S. João Sul, do Pinhal da Vila Chã, do Alto do Romão, da Urbanização dos Sete Portais e a da grande urbanização do Quimiparque, que garantirá negócio por muitos e bons anos, a preços muito acima dos actualmente praticados.

Senhores meus, minhas senhoras, este vosso amigo deseja muito estar enganado quanto ao futuro que nos espera mas concorda inteiramente com as palavras de Carlos Humberto quando, acerca da ponte, diz que “não é o fim de um combate mas o início de uma nova fase”. Resta saber se não serão outra vez os mesmos a ganhar.

Sempre vosso
Captain Jack

domingo, 6 de janeiro de 2008

PALERMAS, ELEFANTES BRANCOS e OUTROS "BICHOS" DE ESTIMAÇÃO

É preciso recuar aos idos de 1976-1978, nos anos a seguir à revolução de Abril, embora eu prefira chamar-lhe simplesmente Golpe de Estado (e basta olhar para a falta de vergonha, irresponsabilidade e pouca competência da maior parte dos nossos políticos de hoje para perceber que assim foi), para assistir ao nascimento do primeiro projecto Elefante Branco na cidade do Barreiro.

Englobado numa série de investimentos “sociais” a Quimigal construiu um conjunto de fábricas de onde se destacam a célebre Kowa Seiko que deveria aproveitar as pirites alentejanas, enriquecê-las e enviá-las para a Siderurgia Nacional, no âmbito do, então, Plano Siderúrgico Nacional.

A Kowa Seiko nunca chegou a alimentar a Siderurgia Nacional porque, entretanto, também o Plano Siderúrgico Nacional não saiu do papel e tudo se saldou numa experiência negativa que custou ao país alguns milhões de contos (na moeda da altura), perdidos e convertidos em toneladas e toneladas de pirite que, durante anos foram monumento à memória da decisão política de Lisboa.

A Kowa Seiko foi vendida como sucata, anos mais tarde, pouco restando que a recorde. Outras fábricas, contudo, ainda hoje existem embora despojadas daquilo que as poderia tornar valiosas para produzir ou estão mesmo completamente obsoletas, após todos estes anos.

Fibras de Vidro, Zinco Metálico, Sulfato de Alumínio são exemplos de elefantes brancos de investimento que não serviram para nada.

Na altura, como hoje se diz de outros projectos em curso, iriam gerar emprego e trazer um novo fôlego à cidade do Barreiro, para que esta recuperasse a sua importância na Margem Sul.

A História mostrou-nos que, afinal, de boas intenções está o mundo cheio (e o Barreiro também!) sendo que o resultado foi que a Montanha pariu um ratinho.

As fábricas foram desmanteladas, os trabalhadores despedidos salvando-se, no entanto, a maior parte dos edifícios, aproveitados a partir de 1990 para, remodelados, acolherem várias empresas das mais diversas áreas de actividade, e assim se mantém até hoje.

Na altura (em 1991), sem grandes manobras de propaganda publicitária, sem grandes devaneios megalómanos, alguém apostou num projecto que hoje se demonstrou ser realista, exequível e, mais importante ainda, foi possível realizar. Impediu-se, com este pouco ambicioso projecto, a degradação do património edificado da Quimigal no Barreiro, foi possível reconstruir infra-estruturas, criar uma envolvente verde no interior do que veio a designar-se por Parque Empresarial e instalar cerca de 300 empresas que empregam 4000 trabalhadores (os números são do Presidente do Conselho de Administração da Quimiparque, publicados pelo jornal “Notícias do Barreiro”).

Mais recentemente, em 2004, foi inaugurado o Museu Industrial da Quimiparque, demonstrando a capacidade de quem sabe trabalhar sem alarde nem propaganda enganadora, afirmando-se pelo saber fazer com os recursos de que dispõe.

São, certamente, ensinamentos da velha “escola” da CUF que aqueles mais velhos tão bem recordam. O Infantário, a Escola Primária, o Posto Médico, o Complexo Desportivo, o Cinema, os Refeitórios, o Balneário, as Despensas, o apoio à Escola Alfredo da Silva, aos clubes da vila (na altura o Barreiro era uma vila), os Bairros habitacionais de Santa Bárbara e o “Novo da CUF”, mas sobretudo a capacidade de criar emprego que, directamente, envolvia 10000 pessoas.

Como é diferente o modo de trabalhar dos nossos responsáveis autárquicos de hoje!

Publicitam-se projectos Polis que, findos três anos após o seu início, se resumem a um passeio ribeirinho com uma ciclovia, “constroem-se” hotéis à beira-rio com vista para “marinas” imaginárias, “cidades do cinema” sem final feliz para, volvidos trinta anos tudo se resumir a um enorme Parque da Cidade, com labirínticos acessos e vedado por edifícios, um auditório, com programas culturais, tímidos e reticentes, que enche por convite, um colossal (em minha opinião) mamarracho escultórico na Rotunda do Álvaro Velho e uma “complexa” rotunda ,nos Casquilhos, cuja construção decorre há mais de 6 (seis) meses!

Anunciam-se agora novos, importantes, ambiciosos, redentores, magnânimos, super-projectos para o centro da cidade.

Um Centro Comercial – Fórum Barreiro – para o qual nem os acessos foram estudados, projectados e muito menos executados, um (mais outro!) complexo habitacional no Campo das Cordoarias (também já lhe chamaram Rossio talvez recordando como seria bom termos por cá um novo Marquês de Pombal) e, por último, tudo pensado para a mesma zona, um outro complexo de comércio, habitação e serviços projectado para onde se ergue, ainda, o Estádio D. Manuel de Mello.

Vai dinamizar e requalificar o centro da cidade” houve quem já o afirmasse mas, para mim, que ainda não me esqueci da confusão que foi a vinda do SLBenfica para jogar com o FCBarreirense, neste mesmo estádio que vai ser demolido e, olhando para o projecto viário que a Câmara Municipal do Barreiro pretende desenvolver à custa da Quimiparque, atrevo-me a dizer que estamos a apostar no cavalo errado.

Sobre este Elefantinho Branco que “estamos” a construir e que já incomoda os moradores da Rua Stara Zagora, a quem ninguém teve o cuidado de informar convenientemente das reais dimensões e implicações desta construção, levantavam-se-me algumas dúvidas que não conseguia entender:

I. Onde está o Estudo de Impacto Viário que deveria ter sido exigido ao promotor?
II. Porque, à semelhança do que fizeram outras autarquias que têm equipamentos semelhantes, não foi exigido ao promotor a construção das necessárias e adequadas infra-estruturas viárias, para fazer face ao esperado fluxo viário?

Até que, em 29 de Setembro de 2007, fiquei esclarecido. Nenhuma das medidas anteriores foi necessária porque se recorreu à Quimiparque, (mais uma vez!), uma empresa de capital público que, já que “mexe” com o dinheiro de todos, pode ser espoliada dos seus activos para rentabilizar o investimento de (alguns) privados.

Desta vez será dada uma dentadinha nos terrenos da Quimiparque contíguos ao estádio do Barreirense e talha-se o resto, cortando em dois o restante território, para o atravessar em direcção ao IC 21.

Recentemente, a um promotor imobiliário que criou uma urbanização em Santo António da Charneca, com 250 fogos de habitação, foi-lhe exigido que construísse uma rede de esgotos com cerca de 1.5km fora dos seus terrenos e ao longo da estrada municipal que liga esta freguesia a Vila Chã.

Ainda estão na memória dos barreirenses os incómodos que isto lhes trouxe, mas era necessário e por isso esse promotor teve que suportar os custos inerentes a esta obra.

Então, apetece agora perguntar, porque razão é que este promotor que propõe um Centro Comercial (que vai acabar com o comércio local) e um conjunto habitacional de 139 fogos (com 5 metros de janela para aproveitar a “amplitude da paisagem” ??? in http://www.rostos.pt/inicio2.asp?cronica=40673&mostra=2), não suporta ele também os custos com as necessárias infra-estruturas, viárias e não só?

Para onde vão os esgotos? Já estão feitos? Alguém já se esqueceu das inundações do cruzamento da Rua Miguel Bombarda com a Av. Alfredo da Silva, sempre que chove? Ligam ao sistema de esgotos da Quimiparque e depois? Irão para o rio Tejo? Estes não poluem nem contaminam as águas? E terá o sistema de esgotos da Quimiparque capacidade e condições para tal acréscimo de caudal?

E porque razão se aceita a redução do número de lugares de estacionamento em ⅓, o que se traduz numa poupança de 4 (quatro) milhões de euros ao promotor do Fórum Barreiro, se amplia a área comercial a arrendar desistindo da ideia de deslocar para este espaço o Mercado Municipal e não se negoceiam melhores contrapartidas?

E porque razão se corta em dois, um parque empresarial onde trabalham 4000 pessoas e empresas importantes como a Sovena (responsável pelo óleo Fula e o azeite Oliveira da Serra, que consumimos), a Mateace (um importante empreiteiro da EDP para o norte e sul do país), a Ipodec e a Ambimed (empresas certificadas na área do tratamento de resíduos), a Noxitel (empresa de telecomunicações que produz e instala as antenas que nos permitem trabalhar com os nossos telemóveis), a Efacec/Atm (importante empresa de metalomecânica e electromecanismos), entre outras?

Que é feito dos discursos de apoio aos desfavorecidos do Bairro das Palmeiras agora que nos preparamos para desviar definitivamente o trânsito do interior deste aglomerado? Será para criar uma imensa zona pedonal com vista para os pátios degradados ou para criar um gueto?

Porque não ter aproveitado esta “Nova Cidade” para rasgar, directamente da rotunda já executada no limite sul do Campo das Cordoarias, uma alameda paralela à linha-férrea, com custos suportados pelos diversos (?) promotores, a exemplo do que se fez em Almada ou no Seixal?

Não seria uma oportunidade para demolir algumas casas degradadas e sem condições de habitabilidade, no Bairro das Palmeiras, e alojar os seus habitantes em casas de habitação social?

Ainda não acabou, prometo-vos senhores meus, minhas senhoras, que voltaremos a estes e outros assuntos. Palavra de

Captain Jack